Portugal, além de Pessoa

Existe, além da aura majestosa de Fernando Pessoa e do sucesso comercial de Saramago, toda uma literatura portuguesa ainda pouco divulgada aqui no Brasil. Dentre os grandes escritores portugueses contemporâneos, gostaríamos de citar Al Berto, autor de uma belíssima obra, marcada, de um modo geral, pela errância – errância espacial: viagens, costantes deslocamentos; errância escritural: as viagens, a pintura, a música, o homoerotismo, as drogas são alguns dos temas recorrentes nessa obra, que transita também entre a prosa, a poesia, as cartas improváveis…
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O Guardador Da Ilha
Há homens com quem se pode aprender a ver aquilo que dentro de nós existe e não sabíamos.
Reconhecemo-los pelo olhar. Quando se aproximam, a noite reflecte-se clara nos nossos rostos. Têm gestos lentos, precisos, como os dos deuses marinhos que habitaram, além, no mar rente à ilha.
Às vezes, quando à hora do calor durmo debaixo duma árvore, aparecem-me em sonhos. Contam que são homens sempre de passagem. Não pertencem a lugar nenhum e raramente pernoitam duas vezes de seguida no mesmo sítio. São homens errantes e muito antigos. Deslocam-se como se fossem sombras. Transportam no coração a euforia de quem viaja.
Uma noite conheci um desses homens e toquei-lhe. Veja a queimadura que me deixou nos dedos. Está a ver?
Por isso não saio daqui. Guardo e vigio a ilha – como se ela precisasse do meu olhar para se manter um ser vivo. Passo os dias dizendo, em voz alta, os nomes das plantas e dos animais, assim… como se rezasse. E, uma noite, do fundo marinho da ilha virá outro homem, ou um deus, para me ensinar mais coisas sobre estas terras.
Vivo nesta charneca que se estende na Cabeça da Cabra até ao mar. Olho fixamente a ilha, mesmo durante a noite, quando ela tem o perfil duma cabeça deitada sobre as águas. Deixo a vida escoar-se ao ritmo das migrações das aves. E ao fim de muitos anos descobri que a ilha é um lugar que cresceu, misteriosamente, dentro de mim. O meu corpo transformou-se em ilha. Olho a ilha, sou a ilha.
Mas não te quero demorar mais. Se quiseres, antes de seguires viagem, ensino-te os nomes dos animais. E se me deres a tua mão, queimar-te-ei os dedos, exactamente como queimaram os meus. Depois, poderás partir por essa linha litoral traçada pelo fogo sobre a pele.
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Truque Tóxico
Volto ao quarto de pensão, fumo até ao vómito
isto é : drogo-me…..
….abro a caixa de papelão, aparentemente cheia de sonhos
escolho um, fumo mais erva, nenhum sonho me serve,
abro a caixa dos pesadelos…..
o silencio ocupa-me e da caixa libertam-se corpos
cores violentas, olhares cúbicos, pássaros filiformes
cadeiras agressivas
limo as arestas fibrosas dos objectos
arrumo-os pelo quarto, de preferencia nos cantos
dou-lhes novos nomes, novas funções, suspiro extenuado
embora a sonolenta tarefa não tenha sido demorada
….outra caixa, azulada, abro-a
entro nela e fecho-a, o escuro solidifica-se na boca
tenho medo durante a noite
alguém se lembrou de atirar fora a caixa……
….luzes, umbigos obscurecidos pelas etiquetas
dos pequenos produtos de consumo, tóxicos
FRAGIL – MANTER ESTE LADO PARA CIMA
NÃO INCLINAR
TIME TO BUY ANOTHER PACKET
O quarto está completamente mobilado de corpos
explodem caixas, o sangue alastra
estampa-se nas paredes sujas de calendários e cromos
de pin-ups obscenas
….fendas de bolor no espelho
o reflexo do corpo arde como uma decalcomania
TIME TO BUY ANOTHER PACKET
todos dormem dentro de caixas, uma serpente flutua
falamos baixinho
não se ouvem mais barulhos de cidade
o sono e o cansaço subiram-me á boca
….movemo-nos lentamente para fora de nossos corpos
e devastamos, devastamos…..
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Leia mais sobre Al Berto aqui.
de capa nova

Não, infelizmente não podemos ter uma caixa dessas em casa (ainda). Influenciado por posters de shows e filmes, feitos à mão, Mickey Burton produziu essa coletânea de clássicos da literatura como trabalho final de graduação. Sua intenção é chamar a atenção do público jovem para a literatura clássica, para isso, Burton selecionou livros que abordam o questinamento da autoridade e criou um estilo ousado e ilustrativo para as capas. Como ele mesmo disse: os leitores de Harry Potter não devem ser os únicos que se divertem.
No site Faceout Books você pode ler uma interessante entrevista feita com o designer e ilustrador americano, na qual ele fala de sua trajetória e processos de criação, além ver todas as capas e rascunhos deste projeto.
Veja outros trabalhos de Burton aqui.
Frágil
Texto enviado por Juliana Vallim, que participou da edição #3 do Pausa.
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E na verdade, mesmo quando tudo vai explodindo, ela permanece; contendo os próximos erros, todos os futuros apertos e a taquicardia que nunca virá. A timidez é como uma máscara pintada sobre a pele frágil e polida. A ameaça de pequenas aproximações e a atração doentia pela incerteza de um mundo imerso em águas absolutamente quentes torna a fala como algum tipo de língua estrangeira secundária, e olhando um pouco melhor, todos esses movimentos explicitam o que a coragem cala.
Depois do fôlego se externando até na palma da mão é como se em cada gesto provocado no meio dos segundos fizesse nascer um buraco negro que, depois de engolir, ricocheteia o som do futuro como uma lembrança fugaz. Ela emudece, na tentativa de paralisar os pensamentos exclusos de sensatez, mas agora e depois de tudo, seu corpo já é simplesmente uma radiografia.
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Leia outros textos da autora:
www.ilcalla.wordpress.com
www.aospecadossilencio.blogspot.com
h. michaux
Esta é uma tradução do trecho inicial da primeira parte da obra L’infini turbulent, entitulada “Les effets de la mescaline”, ainda inédita aqui no Brasil. Não conseguimos encontrar na internet o trecho em francês, motivo pelo qual não colocaremos o texto original.
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Este trabalho é parte do projeto colaborativo de tradução da obra de Henri Michaux. Saiba como participar clicando aqui.
ryotira
(por: Fernanda Gontijo)Alma
Alma é um curta-metragem feito pelo espanhol Rodrigo Blaas, animador da Pixar que já participou de grandes filmes como A Era do Gelo, WALL-E e Up. Blaas trabalhou durante mais de 10 anos neste curta, que ganhou vários prêmios.
extra! extra!

Nesta quinta-feira (21) sortearemos no Twitter uma camiseta do Pausa feita pelo nosso novo parceiro, Sopa de Pato. Para concorrer, basta nos seguir: @_pausa e @sopa_de_pato. Acompanhe-nos no blog e no twitter para mais informações.
Conheça as camisetas Sopa de Pato aqui.
sexta-feira
(por: Fernanda Gontijo)Jónsi & Alex
Numa época em que as maiores lojas de discos estão fechando, e os CDs, como objetos, se tornam cada vez mais raros e, para muitos, até mesmo desnecessários, alguns artistas têm apostado na personalização e no cuidado estético como forma de ultrapassar o meramente útil do CD e conferir ao seu trabalho estatuto de obra de arte.
Muitos têm investido nesse mercado, produzindo obras singulares para um público seleto; dentre eles, gostaríamos de destacar o fantástico trabalho artístico e comercial de Jónsi & Alex. O primeiro já possui trabalho reconhecido mundialmente como vocalista da banda islandesa Sigur Rós. Já Alex Somers, até o recente lançamento do primeiro trabalho com Jónsi, era mais um coadjuvante, colaborando, nos bastidores, na produção dos álbuns do Sigur Rós.
Ano passado, Jónsi e Alex lançaram comercialmente o “Riceboy Sleeps”, um álbum cuidadosamente trabalhado nos aspectos musicais e, sobretudo, visuais. A arte do álbum foi criada pelos próprios músicos (também talentosos artistas visuais) e, além disso, foi lançado um box especial com edição limitada. As 3.500 caixas, numeradas, vendidas em menos de uma semana, são compostas de um pequeno livro de 48 páginas com imagens feitas pela dupla, um livro de colorir, também com desenhos dos dois, uma caixa de lápis de cor, o álbum “Riceboy Sleeps”, um CD single e um bottom (foto acima).
Outro exemplo desse tipo de trabalho é o box lançado pelos americanos do Pixies no ano passado, o “Minotaur”. A caixa, toda feita pelo designer gráfico Vaughan Oliver e sua equipe, contém os cinco álbuns da banda, todos com uma nova arte, mais um DVD ao vivo e um livro de arte com capa dura.

No auge da era da reprodutibilidade técnica, o retorno ao trabalho quase artesanal e ao exclusivismo parece ser uma boa opção artística e comercial.
Conheça mais sobre belo trabalho de Jónsi & Alex aqui.





