A Literatura hoje e sempre
Invariavelmente, escritores ou críticos literários anunciam “bombasticamente” o fim do romance, da literatura, do poema… Enfim, o romance, tal como o conhecemos hoje, já nasceu em crise, em desaparecimento, visto que o que seria específico a ele – os seus traços de gênero, sua linguagem – está em mutação constante (é difícil, mas não impossível identificar um romance, de fato, novo). Essa “morte” do romance, sabemos, tem seu berço em Cervantes, depois no romantismo alemão e sua melancolia, passa por James Joyce e, se não aumentarem os números de divãs disponíveis, vai ainda longe. Mas, por que a questão do fim da literatura não cessa de retornar à cena, em diversas faces? Ao que me parece, é traço constitutivo da escrita literária fazer desaparecer, em cada obra a seu modo singular, o que nela viria com o rótulo de “Literatura”. Nas margens do desaparecimento dos traços literários, um autor pode, contingencialmente, deparar-se com algo de novo em sua escrita. Se estiver à altura do que de novo aparece em sua experiência, pode, sob o risco de fazer em sua obra desaparecer a Literatura, dar forma a uma outra literatura: a sua, aos poucos, de mais alguns (o que não impede que ela possa ser lida por todos). A essa obra, a despeito de qualquer crítica, pode-se chamar literária. Cabe aos leitores estarem à altura do que de novo, de irredutivelmente literário há em cada texto, não significando o novo a última novidade do mercado de livros. Algumas literaturas, alguns romances e contos, poucos poemas, esses passam bem, não estão com data marcada para morrer. Resta acompanhar a mutação dos textos em torno do que, ao longo da história, mas escapando a ela, apresenta-se como irredutivelmente literário.






