Parte 1
Na edição #1 um do Pausa, eu e o Erick tivemos a felicidade de bater uma papo de cerca de uma hora e meia com Jacyntho Lins Brandão, importante helenista e atual diretor da Faculdade de Letras da UFMG. Felicidade, porque Jacyntho não é uma dessas figuras que marcam à toa; Excelente professor – erudito e muito acessível –, é também um escritor talentoso e um crítico atento. Pode parecer irônico, por exemplo, ouvir de um grande estudioso de língua e literatura clássicas que, sem dúvida, a literatura e o jornalismo estão prestes a sofrer grandes transformações, a fim de se adaptarem às inovações tecnológicas – a internet e os aparelhos eletrônicos, como os e-books.
Um detalhe: o tema da nossa entrevista era a reedição de sua peça Que venha a Senhora Dona. Mas o Jacyntho é o Jacyntho. E, em meio a muitas risadas, a conversa tomou outro rumo, e ele nos falava de como o formato do objeto interfere no fazer literário, a exemplo do que aconteceu na passagem do papiro para o in folio (o livro como conhecemos até hoje).
Isso foi em fevereiro de 2008, e apenas recentemente, em outubro de 2009, a Folha, um dos jornais mais lidos do Brasil, lançou uma versão online mais ágil e facilmente visualizável, portanto, mais adequada ao formato virtual. Jacyntho acertou em relação ao jornalismo. Resta-nos saber o que poderá acontecer com a literatura.
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Na edição #7, Maraíza Labanca teve a oportunidade de convidar Luis Alberto Brandão, professor de Teoria da Literatura da UFMG, para fazer uma entrevista para o jornal. Luis Alberto foi outro que marcou nossa graduação, pelo conhecimento sobre poesia e pela forma como abordava e analisava o fazer poético; além disso, possui, como o Jacyntho, reconhecido talento literário e um olhar bastante atento às manifestações literárias contemporâneas. Na época da entrevista, Luis Alberto ministrava um curso sobre o espaço na pós da Letras. E esse foi o tema da nossa conversa, que, por sugestão do próprio autor, acabou se transformando num ensaio. A certa altura, afirma:
“O momento atual, com a propagação da internet, dos sistemas informatizados e dos ambientes virtuais, é também de mudanças radicais, que afetam a literatura. Os efeitos mais visíveis são os que concernem ao modo de veiculação, divulgação e circulação. A literatura finalmente pode se desvincular de seu suporte tradicional, o livro. A circulação não se dá somente por intermédio de instâncias autorizadas, como as editoras. A divulgação passa a incluir formas que extrapolam o meio acadêmico, a imprensa especializada e a crítica literária. A grande mobilidade dos textos, tanto no sentido de seu trânsito quanto no que se refere à possibilidade de serem alterados (e a suspensão torna-se seu estado mais típico), cria novos modelos para a noção de autoria. Além dos blogues e dos sítios interativos, já existem experiências de autoria compartilhada, mas os resultados ainda não se revelaram muito animadores (exceto, é claro, pelo horizonte que abrem).” (grifo meu)
Se perguntarmos para onde vai a literatura, encontramos uma resposta contundente no texto de Luis Alberto: a literatura não vai, ela já foi para a internet – há autorias compartilhadas, formas de circulação não institucionalizadas e autores que escrevem e são lidos a despeito do mercado editorial. Entretanto, afirma também: os resultados ainda são pouco animadores.
Ou seja: se, por um lado, a literatura já foi para a internet, esta ainda não foi capaz de transformar suficientemente o fazer literário, semelhantemente ao que o formato in folio fez com a literatura do papiro. Por sua vez, a literatura parece ainda resistir às várias possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias.
Para onde vai a literatura? Como seria a literatura na era da internet? Existirá, de fato, essa literatura?
Bom, a equipe do Pausa se propõe a tentar responder a essas perguntas, despretensiosamente, na parte 2 deste post, até para não cansar o leitor…
Enquanto isso, leia:
Jacyntho Lins Brandão
no Pausa
Obras recomendadas:
- Que venha a Senhora Dona, Ed. Tessitura, 2008.
1º Lugar no Concurso de Textos Teatrais da Fundação Clóvis Salgado, em 1981.
- A Poética do Hipocentauro. Editora UFMG, 2001.
Indicado ao prêmio Jabuti.
Luis Alberto Brandão
no Pausa
Obras recomendadas:
- Chuva de Letras. Editora Scipione, 2008 – Literatura infanto-juvenil.
- Tablados – livro de livros. Editora 7 Letras, 2004.